Fui pra Ribeira. Domingo.
Circuito Cultural. Para quem não sabe a Ribeira é o bairro mais antigo de
Natal, digamos que o berço dessa cidade quase quingentésima. Percorrem esse
dito circuito os mais diversos tipos de pessoas. Roqueiros, os que curtem
reggae, funk, samba, música eletrônica, além dos intelectuais e de muitos
indefinidos. Só para não esquecer, tem os maconheiros que estão em todos esses
grupos, felizmente.
Ao contrário do que o estereótipo
construiu os mais bem educados (“intelectuais”), doutos e cultos são os menos
interessantes e educados (relevem minha generalização preconceituosa). Eles
costumam sentar num café, com ares de elite francesa, regado a música clássica
e pose de leitores absortos e superiores aos demais grupos que, ironicamente,
frequentam o mesmo ambiente.
Fui de preto, camisa preta, calça
jeans um pouco velha e um all star. Os meus amigos e a minha namorada também,
nesse mesmo estilo. Nem sou tão roqueiro assim, mas achei mais prudente ir
vestido ao estilo.
Para não tornar o texto descritivo
demais, vou direto ao ponto: fui vítima de um dos maiores insultos da minha vida.
Uma dessas frequentadoras que, aparentemente, ´parecia fazer parte daquela
elite, teve a ousadia de dirigir-me a mim nos seguintes termos: “... a porta
não é um bom lugar para ficar indeciso”... , num tom tão áspero e inquisidor
que, imediatamente, tentei revidar. Ela, porém, foi mais rápida, imagino eu por
conhecer muito bem aquele espaço, e, num piscar de olhos, sumiu, sem dar-me o
direito da réplica.
A indignação deu-se tanto pela má
educação, quanto pela ousadia em falar sobre a minha indecisão. Ora, eu já passei
por três cursos de graduação para, finalmente, decidir sobre o correto; já morei
em quatro cidades; já pertenci a grupos religiosos, hoje não frequento mais a
igreja; já gostei de Padre Marcelo Rossi e, hoje, escuto Android Sem Par; como
ela descobriu que sou indeciso só por me ver, 5 segundos, parado na porta? Ela
não podia ter dito isso. Não tinha o direito.
Além disso, a indecisão faz parte
da natureza humana. Ela devia saber que, também, é indecisa. Deve ser aquela
coisa de criticarmos nos outros o que temos em nós. Deve ser isso mesmo.
No Eletro Cana (um barzinho bem “barra
pesada”) ninguém me criticou pela minha indecisão em entrar. Da próxima vez,
não me aproximarei mais daquela “elite”. Eles têm cheiro de elite, gostos de
elite e devem ser muito decididos. Gente decidida não está com nada. Vê-se pelo
exemplo dessa garota.
No mais, é um evento que recomendo.
As pessoas precisam ver pessoas diferentes, só assim, talvez, elas passem a
pensar diferente e quem sabe, um dia, não critiquem os outros por serem
indecisos. Respeite a minha indecisão que eu respeitarei seu nariz arrebitado.
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