Eu não sei valorar a vida. Sei que, cotidianamente, ela está
sendo desvalorizada. Meu julgamento não é moral nem, muito menos,
médico/biologicista. Mas, é o que parece. Não vou falar sobre a gênese da
violência urbana e de seus determinantes histórico-sócio-culturais. Isso é tema
para redações de vestibulares.
Falo sobre a vida do ponto de vista vivencial. Do nosso dia
a dia. Por isso, é impossível pensa-la sem a morte, até por que, somos seres
para a morte. Quando criança era muito difícil compreender a ideia de finitude.
Hoje é mais complicado ainda. Não sei
como se formou esse temor frente a mais irremediável das patologias humanas. É
um sentimento meio que universal. A maioria das pessoas o tem. Temos medo da
nossa morte e da morte das pessoas próximas. Os animais superiores (com córtex
frontal rudimentar) sentem a morte dos seus semelhantes, mas, também, matam. Eles
são predadores e predados. Protegem-se atacando.
E esse dilema (ser predador e caça) parece que persegue os
seres humanos. As guerras estão ai pra isso. Os noticiários de jornal também.
Os dados assustam, as estatísticas chocam e as funerárias comemoram. Tornou-se
banal, não choca mais. É só mais um. E todos os dias são, apenas, mais alguns.
Não são próximos da maioria de nós. Talvez, por isso, não sintamos. Mas, são
muito próximos. São nossos semelhantes, não do ponto de vista cristão, mas
evolutivo.
São pessoas com os mesmos medos, as mesmas esperanças, os
mesmos questionamentos, as mesmas características físicas, capazes de
desempenhar as mesmas funções que desempenhamos. Mas, não são. Não as vemos
assim. São números. São a caça.
Queria muito entender os predadores. Sei que existem explicações.
Muitos artigos científicos já foram escritos, muitas pesquisas longitudinais e
randomizadas. Muitos banners apresentados, muitas revisões de literatura e
teses de doutorado. Nada me convence. Queria ouvir relatos reais. Uma explicação.
As razões racionais e irracionais. Nós podemos compreender. Somos humanos, eles
também são. Não, não estou defendendo. É mais um apelo para a difícil arte de
ouvir.
É clichê, é lugar comum, mas a sociedade molda e nós somos a
sociedade. Somos culpados em parte. Claro, existem as inclinações individuais.
Elas são 50%, os outros 50, somos nós. Devemos assumir esse lugar.
Está ficando cada vez mais difícil viver hoje em dia. Temos
tecnologia para prolongar nossas vidas por muitos anos. Entretanto, não sabemos
conviver. Estamos morrendo de outro modo. Um modo mais difícil de curar. O
agente etiológico dessa doença não é de difícil determinação e, apesar de
conhecermos o patógeno, teimamos em não usar o antígeno adequado. Nossa
imunidade está acabando. Precisamos, rapidamente, de uma vacina.
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