Sou de esquerda. Não da esquerda jacobina, da esquerda
moderna. Essa que é religiosamente contra tantas coisas e levanta tantas
bandeiras que, por momentos, o mastro fica pesado demais. Para fazer parte
desse grupo precisamos ter e concordar com muitos posicionamentos; é necessária
muita convicção, muitos argumentos.
Não travamos lutas braçais. A maioria dos conflitos,
praticamente todos, são ideológicos. Somos anti -poder, anti-preconceito,
anti-religião, anti-conservadorismo, anti –machismo, na linguagem psicanalítica
somos anti-falo. Mas não somos anárquicos. A anarquia, enquanto regime
político, para existir, deve ser instituída. É uma contradição lógica instituir
a desordem, mas como torná-la real sem ter um respaldo, uma outorga? A nossa
contrariedade ao instituído não nos permite adotar esse ideal.
Estamos situamos dentro de um espaço social bem delimitado.
Nossa opinião é considerada pecaminosa, subversiva e reacionária. A antiga
esquerda não era assim. Ela representava e lutava pelo direto de uma maioria
que não era representada, que era subjugada pela minoria dona do poder. Hoje, defendemos os direitos das minorias. Por
isso, não somos aceitos. Por isso, os embates.
Tenho a impressão que usamos mais as redes sociais do que as
ruas. Isso tem uma razão de ser. As ruas não deixaram de ter o seu papel. Mas,
nelas, temos pouca visibilidade. No máximo, ganharemos uns 30 segundos num
noticiário de jornal, numa apresentação carregada de um tom crítico, quase
combativo, mostrando o quanto somos perigosos para a conservação da moralidade
e ordem social.
Eu acho extremamente controverso esse conceito de ser de
esquerda. A maioria das pessoas, inclusive eu, tem lateralidade com a direita.
Faço praticamente tudo com esse lado do corpo. Mas, sou esquerdo em
praticamente todas as outras áreas da vida que não envolvem atividades motoras/cognitivas.
É uma dissonância. Uma confusão. Sou
todo mundo e, ao mesmo tempo, não sou. Fica essa briga entre a direita e a
esquerda. Na verdade, tenho que ser um pouco dos dois.
É possível conciliar. Sempre é possível. A esquerda atual
(que eu defendo) não admite radicalismos, pelo menos não deveria admitir. Os
radicalismos estão fadados ao fracasso. Queremos inverter a lógica. Nosso
discurso é quase anticientífico. Não queremos repetição. Não esperamos que os
resultados sejam sempre os mesmos. Numa acepção fenomenológica, queremos
entender o fenômeno em sua singularidade.
Precisamos defender isso sem unhas e dentes. Não podemos utilizar as mesmas armas. Alias, não podemos utilizar arma nenhuma. Temos que gritar e silenciar ao mesmo tempo.
Precisamos defender isso sem unhas e dentes. Não podemos utilizar as mesmas armas. Alias, não podemos utilizar arma nenhuma. Temos que gritar e silenciar ao mesmo tempo.
No final, certos de
que nosso pensamento é carregado de contradições, poderemos admitir que não
temos todas as respostas, nem novas perguntas.
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