quinta-feira, 25 de abril de 2013

O esquerdismo nosso de cada dia.


Sou de esquerda. Não da esquerda jacobina, da esquerda moderna. Essa que é religiosamente contra tantas coisas e levanta tantas bandeiras que, por momentos, o mastro fica pesado demais. Para fazer parte desse grupo precisamos ter e concordar com muitos posicionamentos; é necessária muita convicção, muitos argumentos.

Não travamos lutas braçais. A maioria dos conflitos, praticamente todos, são ideológicos. Somos anti -poder, anti-preconceito, anti-religião, anti-conservadorismo, anti –machismo, na linguagem psicanalítica somos anti-falo. Mas não somos anárquicos. A anarquia, enquanto regime político, para existir, deve ser instituída. É uma contradição lógica instituir a desordem, mas como torná-la real sem ter um respaldo, uma outorga? A nossa contrariedade ao instituído não nos permite adotar esse ideal.

Estamos situamos dentro de um espaço social bem delimitado. Nossa opinião é considerada pecaminosa, subversiva e reacionária. A antiga esquerda não era assim. Ela representava e lutava pelo direto de uma maioria que não era representada, que era subjugada pela minoria dona do poder.  Hoje, defendemos os direitos das minorias. Por isso, não somos aceitos. Por isso, os embates.

Tenho a impressão que usamos mais as redes sociais do que as ruas. Isso tem uma razão de ser. As ruas não deixaram de ter o seu papel. Mas, nelas, temos pouca visibilidade. No máximo, ganharemos uns 30 segundos num noticiário de jornal, numa apresentação carregada de um tom crítico, quase combativo, mostrando o quanto somos perigosos para a conservação da moralidade e ordem social.

Eu acho extremamente controverso esse conceito de ser de esquerda. A maioria das pessoas, inclusive eu, tem lateralidade com a direita. Faço praticamente tudo com esse lado do corpo. Mas, sou esquerdo em praticamente todas as outras áreas da vida que não envolvem atividades motoras/cognitivas.  É uma dissonância. Uma confusão. Sou todo mundo e, ao mesmo tempo, não sou. Fica essa briga entre a direita e a esquerda. Na verdade, tenho que ser um pouco dos dois.

É possível conciliar. Sempre é possível. A esquerda atual (que eu defendo) não admite radicalismos, pelo menos não deveria admitir. Os radicalismos estão fadados ao fracasso. Queremos inverter a lógica. Nosso discurso é quase anticientífico. Não queremos repetição. Não esperamos que os resultados sejam sempre os mesmos. Numa acepção fenomenológica, queremos entender o fenômeno em sua singularidade.
Precisamos defender isso sem unhas e dentes. Não podemos utilizar as mesmas armas. Alias, não podemos utilizar arma nenhuma. Temos que gritar e silenciar ao mesmo tempo.

 No final, certos de que nosso pensamento é carregado de contradições, poderemos admitir que não temos todas as respostas, nem novas perguntas.

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