sábado, 27 de abril de 2013

Filosofia no zoológico.


Esses dias li um texto todo. Raramente tenho conseguido essa proeza. Poucas leituras conseguem me prender, exceto alguns textos jornalísticos. O tal texto versava sobre um assunto pelo qual me interesso bastante. Porém, o que me prendia a leitura não era tanto o que estava escrito, mas como estava escrito.

Era um diálogo. Um texto descomplicado, quase literatura infantil. Nunca vi conseguirem falar de forma tão clara sobre uma questão filosófica de tamanha complexidade. Filosófica, existencial, teológica e biológica. Era um assunto  cheio de nuances, gerador de muitos embates. Muitos livros já foram escritos, muitas aulas já foram dadas, muitas horas de discussão e de reflexão e nenhum dos grandes pensadores da humanidade conseguiu desvendar o mistério.

Sim, estou falando sobre o surgimento do homem.  Não do Big Bang ou do criacionismo. Do evolucionismo mesmo. Aquela ideia defendida pela ciência de que o homem é um reflexo evolutivo. Outrora, éramos considerados o ápice da evolução. É como se tudo tivesse convergido para sermos o que somos, ou seja, o máximo. Somos inteligentes, pensantes, elaboramos raciocínios complexos, abstratos, temos um polegar opositor. E por aí vai. Temos linguagem, história, cultura. E é tudo muito perfeito. Até que um dia, criamos um zoológico.

Os zoológicos são lugares estranhos, principalmente quando as crianças vão junto. Após ler o incrível texto fui persuadido a pensar como o autor. No zoológico, somos nós que observamos os animais ou são eles que nos observam?  Nós paramos para vê-los e, nem percebemos, mas eles nos veem também. Ficam lá, muitas vezes mais absortos do que nós. Concentrados, olhando os nossos gestos.  Somos estranhos para eles tanto quanto eles são estranhos para nós.

Mas não. Somos homens. Eles não têm polegar opositor. Eles não escrevem livros, não tem canais te TV. Pararam na evolução. O mais interessante é verificar que eles têm comportamentos de equipe e, por muitas vezes, são mais solidários do que nós. Eles podem não ser o ápice da evolução, mas, em muitos aspectos, parecem mais evoluídos.

E as crianças? Elas nos igualam tanto que chega a ser assustador. Um observador atento perceberá as muitas semelhanças entre o comportamento de um bebê chimpanzé com o de uma criança de 2 anos. Falta uma linguagem elaborada, mas sobra a linguagem corporal. Sobram às expressões faciais, a euforia, os sorrisos, as descobertas. Claro, estou fazendo uma defesa velada ao evolucionismo.

Só queria saber onde ficou o elo perdido. Parece que nessa transmissão de dados entre eles e nós, muitos foram perdidos. Eles, nossos ancestrais, têm a prerrogativa da sabedoria. Nós, como filhos e dotados de linguagem, temos a obrigação de não excluí-los do nosso convívio.  Precisamos ouvi-los. É como discurso materno, sempre correto e, por isso, tão dissonante aos nossos ouvidos.

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